Uma em cada dez mulheres com câncer de mama relata abandono do parceiro após o diagnóstico

Receber o diagnóstico de câncer de mama pode mudar completamente a vida de uma mulher. Além do medo da doença, dos procedimentos médicos e das transformações físicas e emocionais, algumas pacientes precisam enfrentar uma dor inesperada: o abandono do parceiro justamente quando mais precisam de apoio.
Uma pesquisa realizada pela Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), em parceria com Datafolha e AstraZeneca, ouviu 240 mulheres com câncer de mama em cinco capitais brasileiras, em setembro de 2024. O levantamento revelou que uma em cada dez entrevistadas afirmou ter sido abandonada pelo parceiro após a confirmação da doença. Apenas 17% disseram não ter se sentido desamparadas durante o tratamento.
O impacto vai além da vida afetiva. Na mesma pesquisa, 27% das mulheres apontaram a falta de apoio financeiro como uma das maiores dificuldades. Outras 13% sentiram falta de companhia para conversar, enquanto 13% disseram precisar de ajuda com tarefas domésticas e cuidados com os filhos.
Para o mastologista e cirurgião oncológico Cícero Urban, diretor da Escola Brasileira de Mastologia, esse cenário aparece também na prática clínica. Segundo ele, há pacientes que chegam ao consultório emocionalmente abaladas, acumulando o desgaste do tratamento e as dificuldades da vida pessoal.
“Infelizmente, é algo que vemos no consultório. Algumas mulheres já chegam muito fragilizadas pelo diagnóstico e pelas etapas do tratamento. Quando, além de tudo isso, enfrentam o abandono do companheiro, a situação se torna ainda mais difícil. O tratamento do câncer de mama vai muito além da cirurgia e da reconstrução mamária. Estamos falando de mulheres que precisam de cuidado, acolhimento e uma rede de apoio para atravessar esse período”, afirma Urban.
Carla Sulamita, paciente acompanhada pelo médico, conhece de perto essa realidade. Depois de 28 anos de casamento e mais de três décadas de relacionamento, ela foi traída pelo marido e, pouco tempo depois, ouviu que ele sairia de casa. Naquele momento, ainda enfrentava o tratamento do câncer de mama, alterações hormonais e os efeitos emocionais da doença.
O diagnóstico já havia sido um período de angústia. A espera pelos resultados dos exames tirava seu sono, e o tratamento exigia anos de acompanhamento. Depois de três anos, ela enfrentou uma depressão. Quando começava a se recuperar, veio a ruptura do relacionamento.
“Não é sobre dinheiro, beleza, idade ou ter uma vida confortável. É sobre o emocional, sobre estrutura, sobre família e sobre se sentir amparada quando você já está fragilizada”, relata a paciente.
A separação desencadeou crises de ansiedade e pânico, agravando o quadro depressivo. Houve um período em que ela não conseguia ir sozinha ao mercado ou à farmácia. Em seus momentos mais difíceis, chegou a pensar em tirar a própria vida.
O apoio dos filhos, da família, dos amigos e de profissionais que permaneceram ao seu lado foi fundamental para que ela começasse a se reconstruir. Entre essas pessoas estava o Dr. Cícero Urban, que a acompanhou durante a jornada.
“Algumas pessoas entram na nossa vida para cuidar da nossa saúde. Outras acabam cuidando também da nossa alma. Ele foi uma dessas pessoas para mim”, conta.
Hoje, embora ainda enfrente desafios de saúde e siga em acompanhamento, ela consegue olhar para a própria história de outra maneira. Seus filhos foram uma das razões que a ajudaram a continuar. Um deles se formou em Medicina neste ano, e o outro está próximo de concluir a graduação. Agora, ela também sonha em conhecer os futuros netos.
“Eu não estou dizendo que foi fácil. Não foi. Estou dizendo que é possível sair do fundo do poço. Ainda tenho medos e dias difíceis, mas estou aqui. Eu sobrevivi, me reconstruí e continuo aqui”, afirma.
A experiência também a levou a fazer um apelo a outras famílias: “Não abandonem uma mulher no momento em que ela mais precisa de acolhimento. O câncer não atinge apenas o corpo. Ele mexe com a autoestima, com o emocional, com a família, com os medos e com a maneira como ela enxerga a própria vida”.
Um estudo brasileiro publicado em 2024 na Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia analisou a situação conjugal de 599 mulheres casadas ou em união estável, participantes de uma pesquisa sobre câncer de mama. Ao final de dois anos de acompanhamento, 5,8% haviam se separado ou divorciado.
A proporção foi maior entre as mulheres submetidas a mastectomia ou procedimentos relacionados, chegando a 8,1%, contra 4,49% entre aquelas submetidas à cirurgia conservadora da mama. Os resultados não permitem afirmar que a doença tenha sido a causa de todas as separações, mas ajudam a dimensionar as mudanças conjugais vividas por parte das pacientes.
Para Urban, os dados reforçam a importância de olhar para a paciente de maneira integral. O tratamento pode envolver cirurgias, quimioterapia, radioterapia, terapia hormonal e acompanhamento prolongado. Nesse percurso, mudanças na imagem corporal, alterações hormonais, menopausa induzida e questões relacionadas à sexualidade podem aumentar a vulnerabilidade emocional.
“A mulher pode ser forte e corajosa e, ao mesmo tempo, precisar de ajuda. O diagnóstico não elimina suas necessidades afetivas. O acolhimento não substitui o tratamento médico, mas faz parte das condições que ajudam a paciente a atravessar esse período”, ressalta o especialista.


