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Por que sites de busca e IA podem atrapalhar a leitura correta do seu hemograma


Com a popularização das ferramentas de busca e dos aplicativos de Inteligência Artificial (IA), tornou-se comum que muitas pessoas tentem interpretar sozinhas seus exames laboratoriais — especialmente o hemograma. No entanto, especialistas alertam que essa prática pode levar a interpretações equivocadas e até causar preocupações desnecessárias. O hemograma, um dos exames mais solicitados na medicina, é uma ferramenta complexa, que precisa ser analisada dentro do contexto clínico de cada paciente e com base no histórico, sintomas e outros exames complementares.


Segundo o biomédico clínico Rafael Menezes, interpretar um hemograma exige conhecimento técnico e compreensão das variações biológicas. “Os valores de referência não são absolutos. Eles mudam conforme o laboratório, a idade, o sexo, a alimentação e até o horário da coleta. Quando alguém digita o resultado no Google ou em uma IA, está ignorando todas essas variáveis”, explica. O especialista reforça que apenas um profissional da saúde pode cruzar esses dados corretamente e determinar se há de fato alguma alteração significativa.


Outro risco está na generalização dos resultados feita por algoritmos de busca e IA. Essas plataformas não têm acesso ao histórico do paciente, não sabem se ele faz uso de medicamentos, se está tratando alguma condição crônica ou se apresenta sintomas específicos. O mesmo resultado que parece “baixo” para uma pessoa saudável pode ser considerado normal para alguém em tratamento. Essa falta de contexto pode induzir ao erro e, em alguns casos, levar o paciente a interromper ou iniciar tratamentos sem orientação médica.


Os impactos psicológicos também são uma preocupação crescente. A exposição constante a informações médicas na internet e o hábito de buscar diagnósticos rápidos aumentam a ansiedade e o medo de doenças. “Muitas pessoas chegam aos consultórios já convencidas de que têm uma condição grave, baseadas apenas em buscas online. Isso dificulta o trabalho médico e aumenta o sofrimento emocional”, afirma Rafael. A automedicação e o atraso na procura por atendimento são consequências diretas desse comportamento.


Com a chegada das IAs generativas, o problema ganha novas dimensões. Embora esses sistemas sejam úteis para explicar termos técnicos ou orientar de forma geral, eles não substituem a avaliação clínica. A IA não interpreta exames, ela apenas relaciona informações disponíveis em bancos de dados. Além disso, pode reproduzir erros, desatualizações e até sugestões inadequadas. O uso responsável da tecnologia deve ser feito como ferramenta de apoio, nunca como fonte de diagnóstico.


Os especialistas reforçam que a leitura do hemograma deve sempre ser realizada por médicos, biomédicos ou enfermeiros capacitados, que analisam os dados dentro de um quadro clínico completo. O paciente pode e deve buscar informações sobre sua saúde, mas o conhecimento deve vir acompanhado de orientação profissional. Entender o próprio corpo é importante, mas o autodiagnóstico digital pode transformar curiosidade em confusão. Em tempos de tecnologia avançada, o diálogo humano continua sendo o elemento mais confiável no cuidado com a saúde.


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