Obesidade mais que triplica no Brasil em três décadas

A obesidade mais que triplicou no Brasil entre 1990 e 2023, passando de 7,8% para 27,7% da população com 25 anos ou mais. O crescimento, identificado por estudo da série Carga Global de Doenças (GBD), conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e publicado em setembro deste ano na revista científica The Lancet Regional Health – Americas, reforça a necessidade de ampliar as estratégias de prevenção e enfrentamento da doença.
No contexto do Dia Nacional de Prevenção da Obesidade, celebrado no último domingo (11), a discussão também destaca o papel da atividade física na promoção da saúde e na prevenção de complicações associadas ao excesso de gordura corporal.
Segundo o levantamento, entre os 17 países latino-americanos analisados, o Brasil apresentou o maior crescimento da prevalência de obesidade no período estudado. Dados do Ministério da Saúde, por meio do sistema Vigitel, também apontam a dimensão do problema: cerca de 25,7% dos adultos brasileiros vivem com obesidade, o equivalente a aproximadamente uma em cada quatro pessoas. Entre crianças e adolescentes, o cenário exige atenção igualmente urgente, já que 177 milhões de pessoas entre 5 e 19 anos vivam com a doença em 2025, segundo estimativa do Atlas Mundial da Obesidade.
Para o profissional de Educação Física e especialista em fisiologia do exercício Jauan Anselmo, os números mostram que o enfrentamento da obesidade precisa ir além de medidas pontuais de emagrecimento. A prevenção passa pela incorporação de hábitos saudáveis desde a infância, pelo acesso à prática regular de exercícios e por estratégias individualizadas, que considerem as condições físicas, a rotina e as necessidades de cada pessoa.
“Isso é uma questão de saúde que não pode ser tratada apenas pela aparência ou pelo número que aparece na balança, agora é preciso olhar para os hábitos alimentares, nível de atividade física, qualidade do sono e histórico de saúde. O exercício físico, especialmente quando bem orientado, é uma ferramenta importante tanto na prevenção quanto no tratamento, mas precisa fazer parte de uma estratégia consistente, possível de manter”, explica.
Na avaliação do especialista, um dos erros mais comuns no processo de emagrecimento é priorizar a perda rápida de peso sem considerar o que está sendo eliminado. Dietas extremamente restritivas, especialmente quando não são acompanhadas de treinamento de força, podem levar à redução de massa muscular, além da perda de gordura.
Um estudo sobre essa preservação durante o emagrecimento, publicado em 2017 no The American Journal of Clinical Nutrition (AJCN), destaca que a restrição calórica pode resultar em perda significativa de massa magra. Em determinados contextos de emagrecimento agressivo, essa parcela pode representar de 25% a 33% do peso perdido, embora o resultado varie conforme a estratégia adotada e as características individuais.
“A pessoa pode até ver o peso baixar rapidamente, mas isso não significa necessariamente que esteja perdendo gordura na proporção desejada. Quando há perda excessiva de massa muscular, o organismo também perde força e capacidade funcional, por isso o objetivo deve ser melhorar a composição corporal, reduzindo a gordura e preservando a musculatura”, afirma Jauan.
A massa muscular desempenha funções importantes na mobilidade, na força, na autonomia e no gasto energético do organismo. Sua preservação é, portanto, um componente relevante tanto para quem busca perder peso quanto para pessoas que precisam prevenir ou controlar a obesidade.
Nesse contexto, o treinamento de força, como a musculação, combinado a uma alimentação adequada, contribui para preservar a massa magra durante a perda de gordura. A ingestão de proteínas deve ser ajustada às necessidades de cada indivíduo, considerando fatores como peso, idade, rotina de exercícios e condições de saúde, preferencialmente com orientação de um nutricionista.
“Musculação não é apenas para quem quer ganhar músculos ou melhorar a estética. O treinamento de força é uma ferramenta de saúde e deve fazer parte das estratégias de prevenção e tratamento da obesidade, respeitando as condições de cada pessoa. O importante é construir um plano que combine exercícios, alimentação adequada e regularidade, em vez de apostar em soluções radicais que não se sustentam”, orienta o especialista.
Prevenção começa com hábitos sustentáveis - A prevenção da obesidade exige atenção também aos fatores sociais e ambientais que influenciam os hábitos de vida. Entre crianças e adolescentes, estimular brincadeiras ativas, esportes, deslocamentos a pé quando possível e a redução do tempo sedentário são medidas que podem contribuir para uma rotina mais saudável. A participação da família, das escolas e das políticas públicas é fundamental para ampliar as oportunidades de movimento desde os primeiros anos.
Para os adultos, o ponto de partida não precisa ser uma rotina intensa de exercícios. A frequência e a intensidade podem ser aumentadas gradualmente, de acordo com a capacidade física e as orientações profissionais. O mais importante é encontrar atividades possíveis de incorporar ao cotidiano e manter a regularidade.
“Não existe uma fórmula única para todos. Uma pessoa sedentária precisa de um planejamento diferente daquele que já treina há anos. É possível começar com metas pequenas e evoluir progressivamente. O que faz diferença é a continuidade. A prevenção não depende de uma dieta milagrosa ou de semanas de esforço extremo, mas de mudanças que possam ser mantidas na vida real”, destaca Jauan Anselmo.
O especialista ressalta que a obesidade é uma condição complexa, influenciada por fatores biológicos, comportamentais, ambientais e sociais, e que seu tratamento exige acompanhamento multiprofissional. A atividade física é uma parte importante desse cuidado, mas deve estar integrada às demais medidas de saúde, sendo um ‘freio’ diante do avanço dos índices no país.


