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Cuidar sem limites: um padrão geracional por trás da exaustão da mulher contemporânea

  • há 50 minutos
  • 3 min de leitura
Foto: Ayeska Azevedo.
Foto: Ayeska Azevedo.

Fazer a lista de compras, marcar a consulta das crianças, ir à reunião da escola, cuidar da casa, das contas, do jantar, e ainda dar conta do trabalho fora de casa. Essa lista de tarefas raramente aparece como trabalho: é o chamado de ‘carga mental’, a energia gasta em planejar, lembrar e se responsabilizar por tudo o que precisa ser feito, mesmo quando há alguém para ajudar na execução. De acordo com a terapeuta integrativa Ayeska Azevedo, fundadora da Ayê Terapias do Feminino, esse acúmulo invisível de responsabilidades provoca uma exaustão que não passa com uma noite de sono, e que é muito percebido entre as mulheres 40+.


Dados do IBGE mostram a dimensão do problema: em 2022, as mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e cuidado de pessoas, 9,6 horas a mais do que os homens, que somaram 11,7 horas. Enquanto 91% das mulheres realizaram alguma tarefa doméstica na semana, entre os homens, a proporção foi de 79%. Historicamente, esse trabalho doméstico não remunerado e pouco reconhecido foi atribuído às mulheres, e persiste mesmo quando elas também têm uma rotina de trabalho remunerado fora de casa. Os efeitos aparecem no corpo e na mente: cansaço persistente, irritabilidade, alterações de sono e falhas de memória estão entre os mais comuns.


É esse tipo de sobrecarga que chega, com frequência, ao consultório de Ayeska. "A maioria [das mulheres que atendo] tem mais de 40 anos, uma vida que funciona - trabalho, família, relações -, mas sente que algo essencial está apagado. São mulheres que sentem no corpo: cansaço que não passa com descanso, libido que foi embora, uma sensação de viver no piloto automático", descreve.


O retrato se confirma em pesquisas recentes. O relatório "Esgotadas", da ONG Think Olga, mostra que 45% das mulheres brasileiras têm diagnóstico de ansiedade, depressão ou outro transtorno mental, e que uma em cada quatro mulheres cuidadoras está insatisfeita ou extremamente insatisfeita com o próprio equilíbrio emocional. Não à toa, crescem no país as buscas por cuidados que vão além do modelo tradicional: as Práticas Integrativas e Complementares somaram 7,16 milhões de atendimentos pelo SUS em 2024, alta de 70% em dois anos.


Foi conectada a esses dados que a terapeuta integrativa Ayeska Azevedo fundou Ayê Terapias do Feminino, um espaço terapêutico dedicado exclusivamente a mulheres, não por adaptação, mas por concepção. Na percepção de Ayeska, isso muda a qualidade do processo terapêutico. "Quando uma mulher entra num espaço concebido para mulheres, ela vivencia seu processo terapêutico de um jeito diferente. Há uma permissão tácita para falar do que normalmente não se fala: o corpo que mudou, o desejo que sumiu, a raiva que não tem nome, a exaustão que ninguém vê, porque ela continua dando conta de tudo", afirma. "Num ambiente genérico, essas questões aparecem, mas com mais camadas de proteção. Aqui elas podem emergir mais cedo, com menos esforço, e o processo terapêutico pode ir mais fundo”, pontua.


Exaustão e baixa libido podem ter a mesma raiz - Três queixas dominam o consultório de Ayeska, e quase sempre têm origem comum. "A exaustão crônica da mulher não é só falta de sono ou excesso de trabalho, e sim o resultado de décadas vivendo desconectada de si mesma, priorizando os outros antes de se priorizar. A libido baixa é frequentemente um sinal de que algo está errado, muito antes da mulher admitir conscientemente. E a menopausa, que a medicina tradicional trata apenas como evento hormonal, é também uma passagem de vida inteira, um convite para renegociar quem essa mulher é e o que ela quer daqui para frente", explica.


Na abordagem integrativa, as emoções são trabalhadas, mas com o corpo, com a história ancestral e com a dimensão energética de cada mulher. Ferramentas como terapia floral, aromaterapia e constelações sistêmicas integram o rol das Práticas Integrativas e Complementares de Saúde (PICs) reconhecidas pelo Ministério da Saúde. "Não é alternativo ao convencional, é complementar e, muitas vezes, o que faltava”, complementa.


 
 
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